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Por que alguém se torna professor?

Texto apresentado na 20ª edição do Prêmio Educador Nota 10, realizado em 2017.

 (Renato Pizzutto/FVC)

“Por que alguém se torna professor?

 A pergunta não é de fácil resposta. Mas o mundo não é feito só de perguntas fáceis. Cada um de nós disfarça, com medo de parecer pretensioso, mas no fundo gostamos mesmo é das perguntas difíceis. Ou ainda estaríamos nas cavernas.

Por que alguém se torna professor?

Em 15 de outubro, comemoramos o Dia do Professor. Na timeline do Facebook, a rede social cada vez mais presente e onipresente, um professor de história no Rio Grande do Sul, chamado Felipe Pimentel,  publicou naquele dia um singelo mas profundo post sobre a profissão professor. Melhor dizendo, uma carta. Diz ela:

Tenho duas profissões. Num certo sentido, são opostas, pois como psicólogo fico sentado ouvindo, e como professor fico de pé falando. Noutro, são complementares: ambas lidam com a memória – a psicologia com a individual, e a história com a coletiva. Minha mãe, Bia, foi professora de português e diretora de escola. Lembro de muito pequeno ir na escola dela e assisti-la passando um ditado ou lidando com as difíceis situações diárias que envolvem uma direção. Minha madrinha Cecília  dedica sua vida inteira à educação. Meu melhor amigo, o Marcelo,  começou a dar aula quando ainda era moleque. Escolhi ainda cedo ser professor, e de história, com muita admiração pelos meus professores do Colégio. Uma de minhas melhores amigas, a Simone, foi minha professora na faculdade, a quem eu somente enchia a paciência com provocações, e que terminou me ensinando que professor acolhe alunos implicantes, ao invés de rechaçá-lo.

Nesse meio tempo, professores que me alfabetizaram viraram colegas, dei aula para milhares de alunos, em várias cidades. Quando eu chego em muitos lugares, as pessoas me recebem com um sonoro “ô professor!” e isso me dá um sentimento bom por dentro. Muitos me encontram e dizem “nossa tu dá aula em colégio,  deve ser difícil…”. E minha reação é de estranhamento, porque por alguma razão as coisas são fáceis, fluidas e felizes pra mim: me divirto demais com os alunos e assim como eu entendo as angústias deles, eles também têm muito de mim a aceitar.

Por que isso tudo aconteceu? Por que essa escolha? Por que essas influências? Onde elas tocaram em mim? Que memórias insistentes, qual sua força? Por que isso que tantos julgam difícil e inviável nesse país (inviáveis são eles!) me é tão agradável? Por quê? 

Não sei.

Nunca encontrei nem a mais vaga resposta.

Acho que ser professor é se perguntar isso até o último dia da vida. Parece-me que essas influências, professores e amigos, essas memórias, esses sentimentos todos e o prazer de dar aula, não são as respostas, mas parceiros na tentativa de resposta.

Talvez quando a gente responda, o encanto acabe. 

 

No final da carta, o professor Felipe agradece a todos os seus  professores, aos colegas de profissão e, claro, aos seus alunos, desejando um Feliz Dia do Professor!

Bem, Felipe, não sabemos a resposta para a pergunta do porquê ser professor. Mas uma coisa que não tem uma única resposta possível, mas milhares de possibilidades, é algo de extremo e absoluto valor.

Um professor não é uma coisa só. Como todos nós, seres humanos,  professores e professoras são um mundo de possíveis.

Professor, a profissão que forma todas as profissões.

Texto de Jeffis Carvalho, lido por Dan Stulbach.