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O que pensam os jovens de baixa renda sobre a escola

Pesquisa mostra que eles não veem sentido em muitos dos conteúdos ensinados em sala e reclamam que os professores não usam a tecnologia durante as aulas. Sinais de que o Ensino Médio precisa ser reformulado

Autoria: Fundação Victor Civita | 2012

=== PARTE 1 ====

Apresentação | Ensino Médio: uma reforma incompleta
O modelo de hoje, precário na infraestrutura das escolas e na formação dos professores, não consegue atrair ou reter boa parte dos jovens

Ensino Médio: uma reforma incompleta. Ilustração: Bruno Algarve

Há pouco mais de 40 anos, o Ensino Médio formava apenas uma elite estudantil, que depois ingressava na universidade. Mas, no início dos anos 1970, esse nível de ensino passou a ser percebido como uma nova exigência do mercado de trabalho, até mesmo por famílias de baixa renda. O aumento da demanda motivou a expansão das vagas, transformando as características da última etapa da Educação Básica, que se tornou massificada. A ampliação foi rápida. Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), as vagas de Ensino Médio apenas na rede estadual - que respondia por 90% do total - passaram de 537 mil em 1971 para 3,8 milhões em 1995. No entanto, a expansão foi feita com poucos recursos materiais e humanos.

Daquela década em diante, apenas dois projetos de reforma foram propostos pelo governo federal, e ambos divergentes no que diz respeito a temas como o currículo e o papel do ensino profissionalizante. "De modo geral, as reformas focaram os currículos e os conteúdos das disciplinas. Questões fundamentais, como a formação do professor para atender às especificidades dos jovens do Ensino Médio, foram muito pouco discutidas", observa a pesquisadora Nora Krawczyk, da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Para Celso Ferretti, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), as reformas também não contemplaram mudanças importantes na infraestrutura visando aproximar o espaço escolar das necessidades dos estudantes. "O ambiente das escolas não é estimulante para eles. Há deficiência de bibliotecas, quadras esportivas, laboratórios de Ciências e de informática", afirma. Muitas vezes os recursos disponíveis são pouco usados, entre outros motivos, por falta de capacitação docente. Assim, a despeito dos avanços, o quadro do Ensino Médio continua desalentador. Em 2011, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), somente 51,6% dos jovens entre 15 e 17 anos estavam matriculados nessa etapa. Dados do Ministério da Educação (MEC) indicam que as matrículas diminuíram nos últimos dez anos, de 8,7 milhões para 8,3 milhões. Além disso, segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2011, dos alunos que deixaram a escola, 70,2% o fizeram entre o 7º ano e o Ensino Médio.

Nova geração traz desafios

Outra questão frequentemente associada à crise do Ensino Médio é a falta de correspondência entre a realidade da escola e a vivida por esses adolescentes fora do ambiente educacional, em razão das intensas mudanças ocorridas na família, na cultura e nos meios de comunicação. "A ausência de diálogo entre o jovem e a escola se soma à desvalorização docente, que se aprofundou com as novas tecnologias. O aluno diz que o professor não fala a língua dele, e isso é um grande obstáculo", afirma Priscila Cruz, diretora executiva do movimento Todos pela Educação.

Por fim, há uma tensão permanente no que diz respeito ao modelo do Ensino Médio: não há um consenso sobre os principais objetivos, se ele deve formar para o ingresso na universidade ou para o mercado de trabalho. "A crise está associada à expansão das vagas e aos modelos de Ensino Médio no país. A escola pública não consegue atrair ou reter o jovem, e repensá-la é um desafio", diz Haroldo da Gama Torres, autor da pesquisa O Que Pensam os Jovens de Baixa Renda sobre a Escola, da Fundação Victor Civita (FVC), em parceria com o Banco Itaú BBA e a Fundação Telefônica Vivo, realizada pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

O levantamento, feito em 2012, envolveu jovens de 15 a 19 anos, que cursam ou cursaram o Ensino Médio por pelo menos seis meses, oriundos dos setores censitários 40% mais pobres de São Paulo e do Recife. O objetivo foi aprofundar os conhecimentos sobre eles, entendendo quais são suas percepções e atitudes sobre esse nível de ensino e como tais percepções influenciam, ou não, na trajetória educacional que seguiram. Para responder às questões, foram combinados métodos de abordagem qualitativa e quantitativa. A etapa qualitativa contou com grupos focais, entrevistas em profundidade e observação virtual - que envolveu o acompanhamento de diálogos entre jovens nas redes sociais e a análise de fóruns de discussão sobre escola e adolescência. Com base nos achados da primeira fase, foram aplicados mil questionários estruturados para a realização da pesquisa quantitativa, cobrindo temas associados às situações escolar, de trabalho e da família, bem como valores, preferências e expectativas dos jovens entrevistados durante a pesquisa qualitativa. Os principais resultados estão a seguir.

Matrículas no Ensino Médio, Normal/Magistério e Integrado*

Matrículas no Ensino Médio,
Normal/Magistério e Integrado

Fonte MEC
*O mesmo aluno pode ter mais de uma matrícula.


Taxa de frequência líquida**
Ensino Fundamental 91,9%
Ensino Médio 51,6%
Ensino Superior 14,6%

Fonte PNAD 2011
**Crianças e jovens de cada faixa etária na etapa de ensino adequada.

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